Existem vários mitos e alegorias sobre a criação do Universo consoante a sua cultura de origem, sendo um dos mais conhecidos o da cultura judaico-cristã.

Mas há alguns dias deparei-me com alguns textos sobre o mito chinês da criação ou o mito de Panku. Para além de muito bonita e poética, a história de Panku é uma analogia muito interessante com a nossa realidade.

Ora vejam:

Diz a lenda que no início não existia nada para além do Vazio ou Dao.

Nesse Dao criou-se um ovo negro que foi chocado durante 18000 anos. Dentro desse ovo coexistiam o Yin, o Yang e Panku, o ser primordial.

Após esses primeiros 18000 anos Panku rompeu a casca do ovo, separando o Yin do Yang e criando o Universo.

Yin, o mais pesado, foi para baixo formando a Terra. Yang, o mais leve, dirigiu-se para cima formando o Céu.

Panku, assustado com o seu gesto, de imediato afastou as pernas e ergueu os braços, numa posição de guerreiro, de forma a separar o Céu da Terra, não permitindo que estes se voltassem a unir.

Mais 18000 anos passaram até que Panku resolveu sair daquela posição e finalmente descansou.

E aí deu-se o milagre da Vida:

O olho esquerdo de Panku deu origem ao sol, o direito
à lua. A sua respiração formou o vento e a sua voz, o trovão. O seu sangue formou os rios e o seu corpo as montanhas. Os seus músculos e pele originaram o chão e a terra e os seus pêlos, as plantas e as florestas. Os seus ossos e medula deram origem aos minerais e às pedras preciosas. O seu suor transformou-se em chuva e todas as criaturas microscópicas que habitavam o seu corpo foram levadas pelo vento dando origem a todos os dez mil seres que se espalharam pelo mundo.

A poética história de Panku tem uma simbologia muito forte, pois todos nós temos um pouco de Panku, vivendo numa dicotomia, separando o bem do mal, o claro do escuro, a alegria da tristeza, o certo do errado e por aí vai…

Todos nós somos Panku, muitas vezes estagnados na mesma posição, porque não nos permitimos ver que uma situação pode ser simultaneamente boa e má, por vezes depende apenas do ponto de vista ou da circunstância.

Quantas vezes ficamos parados para evitar o desconforto? E quantas vezes percebemos que é nesse mesmo desconforto que se encontra a resposta?

Outro grande símbolo desta história é o momento em que Panku descansou. E foi nesse momento que a Vida surgiu!

É apenas quando deixamos de nos limitar por medos, crenças limitantes e preconceitos que a vida  pode manifestar-se em todo o seu esplendor e abundância.

Feliz 2022!